nº 027 20 de Janeiro de 2009 |
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Irineu
Gomes Varella * |
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O ano de 2009 foi proclamado, pela Organização das Nações Unidas, como o Ano Internacional da Astronomia (IYA2009), considerando a sugestão da União Astronômica Internacional (IAU), que aprovou em, sua Assembléia Geral, em 2003, uma resolução nesse sentido. A principal (e muito justa) motivação para isso, foi o fato que em 2009 comemora-se 400 anos do início das observações telescópicas efetuadas pelo físico e astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642), que trouxe uma dimensão inusitada para toda a Astronomia. Entretanto, não devemos esquecer que em 2009 também se estará comemorando os 400 anos da publicação da Astronomia Nova, de Johannes Kepler (1571-1630), obra em que ele apresenta as suas primeiras leis para o movimento planetário - as chamadas Lei das Órbitas e Lei das Áreas. A terceira lei, ou Lei Harmônica, só descoberta dez anos mais tarde, em 1619, portanto, foi divulgada, em 1620, no Epitome Astronomiæ Copernicanæ. O que, no entanto, poucas pessoas conhecem é que ao lado das primeiras leis publicadas na Astronomia Nova, em 1609, Kepler formulou uma outra lei que, se válida, seria hoje considerada como uma quarta Lei de Kepler e que poderíamos denominá-la "Lei das Velocidades" ou "Lei Cinemática": " A velocidade de um planeta é, em cada instante, inversamente proporcional à sua distância ao Sol. " A afirmação não é correta. Seria válida se considerasse a componente da velocidade orbital de um planeta perpendicular ao seu raio vetor. Esta sim é inversamente proporcional à distância do planeta ao Sol, como veremos adiante. Antes, porém, de prosseguir em nossa exposição, vamos recordar ao leitor de forma bastante sucinta, as tradicionais leis do movimento dos planetas, estabelecidas por Kepler no século XVII. |
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AS
LEIS DE KEPLER PARA O MOVIMENTO PLANETÁRIO |
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Todos
os planetas do Sistema Solar movimentam-se ao redor do Sol obedecendo
às chamadas leis de Kepler. O astrônomo alemão
Johannes Kepler (1571-1630) analisando uma grande quantidade de observações
astronômicas efetuadas pelo astrônomo dinamarquês
Tycho Brahe (1546-1601), em especial das posições do
planeta Marte no céu, concluiu, empiricamente, três leis
do movimento planetário, chamadas leis de Kepler. |
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Fig.01
- Órbita planetária com excentricidade propositalmente
exagerada, para ressaltar a variação da distância
planeta-Sol. A posição do planeta, em sua órbita,
pode ser expressa por duas coordenadas polares, como indicadas na
figura. |
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Adotando-se
um sistema de coordenadas polares com pólo no Sol e com eixo
na direção Sol-periélio da órbita, orientado
nesse sentido, a distância de um planeta ao Sol (
r ) pode ser calculada para cada posição do planeta
dada pelo ângulo |
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onde
a é o semi-eixo
maior da órbita e e
a sua excentricidade. |
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O
vetor com origem no centro do Sol e extremidade no centro do planeta
é chamado de raio vetor do planeta. Consideremos,
como na figura 02, um planeta descrevendo uma órbita ao redor
do Sol. Sejam M, N, Q e R, quatro posições do planeta.
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Fig.02
- As áreas dos triângulos SMPN e SQAR são iguais
pois foram varridas pelo raio-vetor no mesmo intervalo de tempo. |
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Unindo-se
os pontos M, N, Q e R ao Sol ( S ), formam-se dois triângulos
( MSN e QSR ), ambos com bases curvilíneas ( arcos de elipse
). A segunda lei de Kepler afirma que se os arcos de elipse MN e QR
forem percorridos no mesmo intervalo de tempo, o que acarreta no fato
das áreas dos triângulos MSN e QSR terem sido varridas
pelo raio-vetor do planeta no mesmo intervalo de tempo, então
as áreas dos dois triângulos são iguais. |
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Na
realidade, a relação citada na terceira lei de Kepler
é apenas aproximadamente constante para todos os planetas.
Se considerarmos a o
semi-eixo maior da órbita de um planeta ao redor do Sol e P
o seu período de translação então, |
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onde
M |
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POR
QUE NÃO É VÁLIDA A "QUARTA LEI DE KEPLER"
? |
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A
velocidade orbital de um planeta é um vetor tangente à
elipse descrita pelo planeta ao redor do Sol. Um vetor tangente a
uma elipse NÃO
é, no caso geral, perpendicular a nenhum dos segmentos que
une o ponto de tangência aos focos. Desta maneira, o vetor velocidade
não é, em geral, perpendicular ao raio-vetor do planeta,
exceto quando ocorrem as passagens periélica e afélica. |
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Fig.
03 - A velocidade orbital de um planeta e suas componentes radial
e normal ao raio-vetor. |
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Podemos,
então, decompor o vetor velocidade em duas componentes com
direções perpendiculares entre si: uma normal ao raio-vetor
e outra na sua direção ou direção radial,
como está ilustrado na figura 03. A partir da expressão
diferencial para a lei das áreas - uma conseqüência
da Lei da Conservação do Momento Angular - podemos obter
as expressões para as velocidades radial e normal ao raio-vetor. |
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A
EXPRESSÃO DIFERENCIAL DA LEI DAS ÁREAS |
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A
figura abaixo ilustra a situação de um planeta descrevendo
um pequeno arco de sua trajetória ao redor do Sol, com comprimento
dS. No mesmo intervalo de tempo, a anomalia verdadeira tem uma pequena
variação representada por d |
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Pode-se
demonstrar que a constante C, que corresponde ao dobro do valor da
velocidade areolar, tem por valor: |
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Nessa
expressão, G
representa a constante de Gravitação Universal, M |
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A
COMPONENTE NORMAL DA VELOCIDADE ORBITAL |
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A
partir da expressão diferencial da lei das áreas, obtemos: |
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Como
se verifica, esta componente é inversamente proporcional à
distância do planeta ao Sol. |
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A
COMPONENTE RADIAL DA VELOCIDADE ORBITAL |
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Derivando,
em relação ao tempo, a expressão que relaciona
o módulo do raio-vetor com a anomalia verdadeira e utilizando
o resultado anterior, obtemos: |
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Especial
atenção deve ter o leitor para não confundir
a derivada temporal do raio-vetor, que corresponde ao vetor velocidade
orbital, com a derivada temporal do módulo do raio-vetor, efetuada
acima, que corresponde ao módulo da velocidade radial. |
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A VELOCIDADE ORBITAL AO REDOR DO SOL |
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Aplicando-se
o teorema de Pitágoras ao triângulo retângulo cujos
catetos são as velocidades radial e normal e cuja hipotenusa
é a velocidade orbital e fazendo uso das expressões
anteriores para as velocidades radial e normal e efetuando-se as substituições
necessárias para eliminar a anomalia verdadeira, obtemos a
seguinte expressão para o módulo da velocidade orbital: |
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A
expressão anterior deixa evidente que a velocidade orbital
de um planeta ao redor do Sol, não é, em cada instante,
inversamente proporcional à sua distância ao Sol. Cabe
também ressaltar que na ocasião em que Kepler fez as
suas descobertas ainda não existia o Cálculo Diferencial,
de maneira que a noção de velocidade sobre uma curva
não havia ainda sido estabelecida de maneira rigorosa, do ponto
de vista matemático. Além disso, o fato das órbitas
no Sistema Solar serem elipses de pequenas excentricidades, provavelmente
dificultou a percepção de Kepler com relação
à alteração da velocidade orbital em função
da variação da distância do planeta ao Sol. |
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| Referências: | ||||||||||||
| Kovalevsky, J. - L'Astronomie - 77º année - Juin 1963 - p.235 - Paris. | ||||||||||||
| Danjon, A. - Astronomie Générale - 1980 - Paris | ||||||||||||
| Boulet, D. - Methods of Orbit Determination for the Microcomputer - Willmann-Bell - 1991 - Richmond. | ||||||||||||
| Varella, I.G. & Oliveira, P.D.C.F. - Astronomia do Sistema Solar - 4a. Edição - 2007 - São Paulo. | ||||||||||||
| Varella, I.G. - As Leis de Kepler - 1996 - São Paulo. | ||||||||||||
Este
texto faz parte do Projeto de Divulgação da Astronomia
do Grupo Uranometria Nova durante o |
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