nº 019
03 de Setembro de 2004

Eclipse Total da Lua

27 / 28 de Outubro de 2004

     
Irineu G. Varella & Priscila D. C. F. de Oliveira
 

Os eclipses da Lua ocorrem toda vez que o nosso satélite penetra no cone de sombra projetado pela Terra no espaço. Estando, portanto, do lado oposto ao Sol, os eclipses lunares só podem ter lugar quando a Lua passa pela fase de cheia.



Fig. 1 - Esquema geral de ocorrência dos eclipses lunares.

Iluminada pelo Sol, a Terra projeta no espaço dois cones: o de sombra e um de penumbra. Em seu movimento orbital ao redor da Terra, em certas ocasiões, a Lua penetra no cone de penumbra e temos o chamado eclipse penumbral, muito dificil de ser observado, uma vez que a atenuação do brilho lunar é quase imperceptível.

Em determinadas condições a Lua pode atravessar parcial ou totalmente o cone de sombra, ocorrendo aí, o ECLIPSE LUNAR propriamente dito.

Na noite de 27 para 28 de outubro poderemos observar ( se as condições meteorológicas permitirem ) um ECLIPSE TOTAL DA LUA, cujas etapas ocorrerão nos horários relacionados na tabela adiante. Os horários foram calculados pelo método clássico, com aumento de 2% no raio angular aparente da sombra e da penumbra e pelo método de Danjon introduzindo-se correções no valor da paralaxe lunar.

Os horários das ocorrências das diversas fases valem para o fuso -3h ( ou 3h oeste ). Para as localidades situadas nos fusos (-4h) e (-5h), subtrair respectivamente 1h e 2h dos horários indicados, tendo em conta as eventuais mudanças de datas. Assim, por exemplo, em Manaus-AM, situada no fuso (-4h), o meio do eclipse ocorre às 23h 04m do dia 27. Em Rio Branco-AC, a saída da Lua da sombra ( U4 ) se dará às 23h 54m do dia 27. Para mais informações consulte: Fusos Horários do Brasil.


TABELA 1 - HORÁRIOS DAS OCORRÊNCIAS DAS DIVERSAS FASES (*)

FASES
F
DATA
CLÁSSICO
DANJON
1
Entrada da Lua na penumbra
P1
27.10.2004
21h 05m
-------
2
Entrada da Lua na sombra
U1
27.10.2004
22h 14m
22h 15m
3
Início do eclipse total
U2
27.10.2004
23h 23m
23h 24m
4
Meio do eclipse
M
28.10.2004
00h 04m
00h 04m
5
Fim do eclipse total
U3
28.10.2004
00h 44m
00h 44m
6
Saida da Lua da sombra
U4
28.10.2004
01h 54m
01h 53m
7
Saida da Lua da penumbra
P4
28.10.2004
03h 03m
-------

(*) Se na data do eclipse estiver vigorando o horário de verão, adicionar 1h aos horários indicados.



TABELA 2 - OUTRAS INFORMAÇÕES SOBRE O ECLIPSE

   
CLÁSSICO
DANJON
Duração do eclipse total
U3 - U2
01h 21m
01h 20m
Duração do eclipse pela sombra
U4 - U1
03h 40m
03h 38m
Duração total do eclipse
P4 - P1
05h 58m
 
Grandeza do eclipse pela sombra
g
1,313
1,307


O diagrama seguinte representa um corte da região da penumbra e da sombra projetadas pela Terra, na posição correspondente à distância da Lua, ilustrando as diversas fases do fenômeno que poderá observado. A Lua permanecerá totalmente imersa na sombra da Terra ( intervalo U3-U2 ) durante 01 hora e 21 minutos, cerca de 26 minutos a menos do que a máxima duração possível para esse tipo de fenômeno que é de 1h 47min.



Fig. 2 - As diversas etapas do eclipse total da Lua de 27/28 de outubro.


Embora sendo um astro iluminado pelo Sol e estando imersa na sombra da Terra, a Lua não se tornará invisível. É que uma parte dos raios solares que atravessa a atmosfera terrestre sofre desvio ( refração ), penetra no cone de sombra e atinge o disco lunar permitindo sua percepção. As condições atmosféricas da Terra, no momento do eclipse, determinam a coloração da Lua no instante da totalidade. Em muitas ocasiões, a Lua se apresenta com uma coloração alaranjada, em outras avermelhada e, em alguns eclipses, com um tom marrom escuro, quando na atmosfera existem grandes quantidades de partículas geradas, principalmente, pelas erupções vulcânicas.

 



Fig. 3 - Espalhamento e refração da luz solar pela atmosfera terrestre.


A luz solar é composta por radiações de várias cores (varias freqüências). Quando a luz do Sol atinge a atmosfera, atravessando-a de forma razante como na figura acima, as moléculas do ar produzem o espalhamento da luz azul em todas as direções. As radiações de maior comprimento de onda ( alaranjada e vermelha ) são desviadas para dentro do cone de sombra, dando essas tonalidades à Lua à medida que o eclipse se desenvolve. A imagem ao lado ilustra a coloração da Lua durante o eclipse total de 20 de janeiro de 2000. Foto divulgada pela NASA em 02.Fev.2000.
 
 
Fig. 4 - Aspectos da Lua na fase central de um eclipse. Fotos de Stephen Barnes - 20.Jan.2000



A OBSERVAÇÃO DO ECLIPSE


O eclipse poderá ser observado a olho nu ou com o auxílio de binóculos, lunetas ou telescópios, uma vez que este fenômeno não traz quaisquer prejuízos à visão, ao contrário do que ocorre com os eclipses solares. O amador em astronomia que disponha de um pequeno instrumento para a observação poderá acompanhá-lo cronometrando os instantes das diversas fases, assim como a passagem da sombra pelas inúmeras crateras, mares e montanhas lunares.

O eclipse lunar do dia 28 de outubro poderá ser acompanhado em todas as suas etapas e de todos os pontos do território brasileiro, não havendo locais privilegiados. Durante o eclipse a Lua estará localizada na constelação de Aries ( o carneiro ). A borda sul do disco lunar estará, no meio do eclipse, a 0,7' do centro da sombra e a borda norte a 9,5' do limite da sombra e a 31,3' do centro ( veja a figura 2 ). Desta forma, diferentes regiões da Lua estarão em diferentes partes da sombra e poderemos notar diferenças no brilho e na coloração do disco lunar. O limbo norte, mais próximo da borda da sombra, se apresentará mais claro que o limbo sul que estará próximo do centro da sombra.

Para um observador em São Paulo, no instante do meio do eclipse, a Lua estará com 52,7º de altura e 353,8º de azimute ( contado a partir do ponto cardeal norte no sentido norte - leste - sul - oeste ).



IMPORTÂNCIA DOS ECLIPSES LUNARES


Do ponto de vista científico os eclipses lunares têm menor importância que os eclipses solares. Mesmo assim, há observações e medidas que permitem melhorar o conhecimento científico. Por exemplo: a observação da Lua na faixa do infra-vermelho, durante a sua entrada na sombra da Terra e no período em que ela se encontra mergulhada no interior do cone de sombra terrestre, oferece material científico para se estudar as variações das temperaturas na superfície lunar à medida que nosso satélite é obscurecido.

As observações das diversas fases do eclipse lunar e a cronometragem dos instantes em que a sombra da Terra passa por algumas crateras lunares, permitem, pela comparação entre os instantes observados e os previstos, melhorar o nosso conhecimento sobre o movimento orbital da Lua, sobre o movimento de rotação da Terra e aprimorar os métodos de cálculo e as teorias de previsão dos eclipses.

Dois procedimentos são utilizados para o cálculo dos horários das diversas fases de um eclipse lunar: o chamado método clássico que considera os raios aparentes da sombra e da penumbra aumentados em 2% para dar conta dos efeitos da atmosfera terrestre e o método devido ao astrônomo francês André Danjon que utiliza um valor aumentado da paralaxe lunar para dar conta dos efeitos citados. No primeiro procedimento os tamanhos da sombra e da penumbra são aumentados na mesma proporção enquanto que no segundo método os aumentos são desiguais, o que provoca alteração nos instantes previstos pelos dois métodos.

A observação e a cronometragem cuidadosas dos instantes em que a sombra da Terra passa por algumas crateras lunares permitem acumular dados para que se possa calcular o aumento de tamanho da sombra terrestre e decidir qual dos dois procedimentos oferece os melhores resultados no cálculo da previsão.

São necessários para isso, além de um pequeno telescópio ou um binóculo, um relógio aferido e um mapa da superfície lunar para que possam ser identificadas as crateras. A tabela adiante fornece os instantes previstos para a passagem da sombra terrestre em algumas crateras de grande tamanho. Os instantes foram calculados pelo astrônomo norte-americano Fred Espenak, da NASA.

Ao alcance do amador em Astronomia está, também, a determinação do chamado Número de Danjon, que indica o grau de obscurecimento e a coloração da Lua no instante central do eclipse.


TABELA 3 - PASSAGEM DA SOMBRA TERRESTRE
POR ALGUMAS CRATERAS DA LUA

( Em 27 e 28 de outubro, Tempo Legal do Fuso 3h Oeste )

IMERSÃO
CRATERA
EMERSÃO
CRATERA
22:16
Grimaldi
00:52
Aristarchus
22:20
Billy
00:54
Grimaldi
22:27
Kepler
00:58
Plato
22:28
Aristarchus
00:59
Kepler
22:29
Campanus
01:01
Billy
22:35
Copernicus
01:03
Pytheas
22:38
Tycho
01:04
Timocharis
22:38
Pytheas
01:06
Copernicus
22:44
Timocharis
01:07
Aristoteles
22:52
Manilius
01:09
Eudoxus
22:55
Dionysius
01:13
Campanus
22:55
Plato
01:18
Manilius
22:56
Menelaus
01:21
Menelaus
23:00
Plinius
01:23
Tycho
23:03
Eudoxus
01:25
Plinius
23:04
Aristoteles
01:27
Dionysius
23:06
Goclenius
01:34
Proclus
23:10
Taruntius
01:39
Taruntius
23:12
Proclus
01:43
Goclenius
23:13
Langrenus
01:48
Langrenus

 

OUTRAS INFORMAÇÕES TÉCNICAS SOBRE O ECLIPSE

Série: O eclipse total da Lua de 28 de outubro é a repetição, após um período de Saros, do eclipse total ocorrido em 17 de outubro de 1986. Ambos fazem parte da série de Saros que se desenvolve em torno do nodo ascendente da órbita lunar e que teve início com o eclipse penumbral ocorrido em 13 de abril de 1680 e que se encerrará com o eclipse penumbral de 31 de maio de 2960. A série em questão terá, portanto, a duração de 1.280 anos. O presente eclipse é o 19º da série composta por 72 eclipses ( incluíndo os penumbrais e umbrais parciais e totais ).

Pontos Sub-lunares: No início do eclipse pela sombra ( U1 ) a Lua estará no zênite do local de latitude +13º e longitude 24ºW e, ao final, no zênite do local de latitude +14º e longitude 77ºW.



TABELA 4 - OS PRÓXIMOS ECLIPSES DA LUA

DATA *
TIPO
VISIBILIDADE NO BRASIL
01
2005.ABR.24
Penumbral
Invisível no Brasil.
02
2005.OUT.17
Parcial
Invisível no Brasil.
03
2006.MAR.14
Penumbral
Observável em todo o território brasileiro.
04
2006.SET.07
Parcial
Invisível no Brasil.
05
2007.MAR.03
Total
A fase penumbral inicial será invisível no Brasil.
06
2007.AGO.28
Total
Somente as fases iniciais serão visíveis no Brasil.
07
2008.FEV.21
Total
Visível em todo o território brasileiro.
08
2008.AGO.16
Parcial
Somente as fases finais serão visíveis no Brasil.
09
2009.FEV.09
Penumbral
Invisível no Brasil.
10
2009.JUL.07
Penumbral
Invisível no Brasil.
11
2009.AGO.05
Penumbral
Observável em todo o território brasileiro.
12
2009.DEZ.31
Parcial
Invisível no Brasil.
13
2010.JUN.26
Parcial
Invisível no Brasil.
14
2010.DEZ.21
Total
As fases finais serão invisíveis no Brasil.
15
2011.JUN.15
Total
Somente as fases finais serão visíveis no Brasil.

* As datas referem-se ao instante do meio do eclipse em tempo legal do fuso -3h (Hora de Brasília).


URANOMETRIA NOVA - Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário e Escola Municipal de Astrofísica de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e E. M. de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Walter Torres Varella - waltervarella@ig.com.br


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