nº 032
26 de Janeiro de 2008

Eclipse Total da Lua

20-21 de Fevereiro de 2008

     
Irineu G. Varella & Priscila D. C. F. de Oliveira
 

 
INFORMAÇÕES GERAIS SOBRE OS ECLIPSES DA LUA
 
Os eclipses da Lua ocorrem toda vez que o nosso satélite penetra no cone de sombra projetado pela Terra no espaço. Estando, portanto, do lado oposto ao Sol, os eclipses lunares só podem ter lugar quando a Lua passa pela fase de cheia.


Fig. 1 - Esquema geral de ocorrência dos eclipses lunares.

 

Iluminada pelo Sol, a Terra projeta no espaço dois cones: um de sombra e um de penumbra. Em seu movimento orbital ao redor da Terra, em certas ocasiões, a Lua penetra no cone de penumbra e temos o chamado eclipse penumbral, muito dificil de ser observado, uma vez que a atenuação do brilho lunar é quase imperceptível. Em determinadas condições a Lua pode atravessar parcial ou totalmente o cone de sombra, ocorrendo aí, o ECLIPSE LUNAR propriamente dito.

No final da noite de 20 de fevereiro e início da madrugada do dia 21 poderemos acompanhar ( se as condições meteorológicas permitirem ) todas as fases de um ECLIPSE TOTAL DA LUA, cujas etapas ocorrerão nos horários relacionados na tabela adiante. Os horários foram calculados pelo método clássico, com aumento de 2% no raio angular aparente da sombra e da penumbra e pelo método de Danjon introduzindo-se correções no valor da paralaxe lunar. Como o eclipse ocorre com a Lua alta no céu, todas as localidades poderão acompanhar o fenômeno em todas as suas fases.

Os horários das ocorrências das diversas fases, relacionados na TABELA 1, valem para o fuso horário (-3h) ou 3h oeste de Greenwich e que corresponde ao Tempo Legal do Distrito Federal (TDF). Para as localidades situadas nos fusos (-4h) e (-5h), subtrair respectivamente 1h e 2h dos horários indicados, tendo-se em conta as eventuais mudanças de datas ( Veja Fusos Horários do Brasil ). Assim, por exemplo, em Manaus-AM, situada no fuso (-4h), o meio do eclipse ocorre às 23h 26m do dia 20 de fevereiro e em Rio Branco-AC, a saída da Lua da sombra ( U4 ) se dará às 00h 09m.

 
 
 
TABELA 1 - HORÁRIOS DAS OCORRÊNCIAS DAS DIVERSAS FASES
 
FASES
F
DATA
CLÁSSICO
DANJON
1
Entrada da Lua na penumbra
P1
20.02.2008
21h 35m
21h 36m
2
Entrada da Lua na sombra
U1
20.02.2008
22h 43m
22h 43m
3
Início do eclipse total
U2
21.02.2008
00h 01m
00h 01m
4
Meio do eclipse
M
21.02.2008
00h 26m
00h 26m
5
Fim do eclipse total
U3
21.02.2008
00h 51m
00h 51m
6
Saida da Lua da sombra
U4
21.02.2008
02h 09m
02h 09m
7
Saida da Lua da penumbra
P4
21.02.2008
03h 17m
03h 16m
8
LUA CHEIA
LC
21.02.2008
00h 31m
 
 
TABELA 2 - OUTRAS INFORMAÇÕES SOBRE O ECLIPSE
 
   
CLÁSSICO
DANJON
Duração do eclipse total
U3 - U2
50m
50m
Duração do eclipse pela sombra
U4 - U1
03h 26m
03h 26m
Duração total do eclipse
P4 - P1
05h 42m
05h 40m
Grandeza do eclipse pela sombra
g
1,111
1,106
 
 
O diagrama seguinte representa um corte da região da penumbra e da sombra projetadas pela Terra, na posição correspondente à distância da Lua, ilustrando as diversas fases do fenômeno que poderá observado. A Lua permanecerá totalmente imersa na sombra da Terra ( intervalo U3-U2 ) apenas durante 50 minutos, cerca de 57 minutos a menos do que a máxima duração possível para esse tipo de fenômeno que é de 1h 47min.

Fig. 2 - As diversas etapas do eclipse total da Lua de 20-21 de fevereiro de 2008.

 
 
 
VISIBILIDADE DA LUA DURANTE O ECLIPSE
 

Embora sendo um astro iluminado pelo Sol e estando imersa na sombra da Terra, a Lua não se tornará invisível. É que uma parte dos raios solares que atravessa a atmosfera terrestre sofre desvio ( refração ), penetra no cone de sombra e atinge o disco lunar permitindo sua percepção. As condições atmosféricas da Terra, no momento do eclipse, determinam a coloração da Lua no instante da totalidade. Em muitas ocasiões, a Lua se apresenta com uma coloração alaranjada, em outras avermelhada e, em alguns eclipses, com um tom marrom escuro, quando na atmosfera existem grandes quantidades de partículas geradas, principalmente, pelas erupções vulcânicas.

 
Fig. 3 - Espalhamento e refração da luz solar pela atmosfera terrestre.
 
A luz solar é composta por radiações de várias cores (várias freqüências). Quando a luz do Sol atinge a atmosfera, atravessando-a de forma razante como na figura acima, as moléculas do ar produzem o espalhamento da luz azul em todas as direções. As radiações de maior comprimento de onda ( alaranjada e vermelha ) são desviadas para dentro do cone de sombra, dando essas tonalidades à Lua à medida que o eclipse se desenvolve. A imagem ao lado ilustra a coloração da Lua durante o eclipse total de 20 de janeiro de 2000. Foto divulgada pela NASA (02 de Fevereiro de 2000).
   
 
 
Fig. 4 - Aspectos da Lua na fase central de um eclipse. Fotos de Stephen Barnes - 20.Jan.2000
 
 
A OBSERVAÇÃO DO ECLIPSE
 

O eclipse poderá ser observado a olho nu ou com o auxílio de binóculos, lunetas ou telescópios, uma vez que este fenômeno não traz quaisquer prejuízos à visão, ao contrário do que ocorre com os eclipses solares. O amador em astronomia que disponha de um pequeno instrumento para a observação poderá acompanhá-lo cronometrando os instantes das diversas fases, assim como a passagem da sombra pelas inúmeras crateras, mares e montanhas lunares.

Durante o eclipse, a Lua estará localizada na constelação de Leo ( o Leão ). A borda nordeste do disco lunar estará, no meio do eclipse, a 7,2' do centro da sombra e a borda sudoeste estará a 3,3' do limite da sombra ( veja a figura 2 ). Desta forma, diferentes regiões da Lua estarão em diferentes partes da sombra e poderemos notar diferenças no brilho e na coloração do disco lunar. O limbo sudoeste, mais distante do centro da sombra, se apresentará mais claro que o limbo nordeste.

 
 
IMPORTÂNCIA DOS ECLIPSES LUNARES
 

Do ponto de vista científico os eclipses lunares têm menor importância que os eclipses solares. Mesmo assim, há observações e medidas que permitem melhorar o conhecimento científico. Por exemplo: a observação da Lua na faixa do infra-vermelho, durante a sua entrada na sombra da Terra e no período em que ela se encontra mergulhada no interior do cone de sombra terrestre, oferece material científico para se estudar as variações das temperaturas na superfície lunar à medida que nosso satélite é obscurecido.

As observações das diversas fases do eclipse lunar e a cronometragem dos instantes em que a sombra da Terra passa por algumas crateras lunares, permitem, pela comparação entre os instantes observados e os previstos, melhorar o nosso conhecimento sobre o movimento orbital da Lua, sobre o movimento de rotação da Terra e aprimorar os métodos de cálculo e as teorias de previsão dos eclipses.

Dois procedimentos são utilizados para o cálculo dos horários das diversas fases de um eclipse lunar: o chamado método clássico que considera os raios aparentes da sombra e da penumbra aumentados em 2% para dar conta dos efeitos da atmosfera terrestre e o método devido ao astrônomo francês André Danjon que utiliza um valor aumentado da paralaxe lunar para dar conta dos efeitos citados. No primeiro procedimento os tamanhos da sombra e da penumbra são aumentados na mesma proporção enquanto que no segundo método os aumentos são desiguais, o que provoca alteração nos instantes previstos pelos dois métodos.

A observação e a cronometragem cuidadosas dos instantes em que a sombra da Terra passa por algumas crateras lunares permitem acumular dados para que se possa calcular o aumento de tamanho da sombra terrestre e decidir qual dos dois procedimentos oferece os melhores resultados no cálculo da previsão.

São necessários para isso, além de um pequeno telescópio ou um binóculo, um relógio aferido e um mapa da superfície lunar para que possam ser identificadas as crateras. A tabela adiante fornece os instantes previstos para a passagem da sombra terrestre em algumas crateras de grande tamanho. Os instantes foram calculados pelo astrônomo norte-americano Fred Espenak, da NASA.

Ao alcance do amador em Astronomia está, também, a determinação do chamado Número de Danjon, que indica o grau de obscurecimento e a coloração da Lua no instante central do eclipse.

 
 
TABELA 3 - PASSAGEM DA SOMBRA TERRESTRE
POR ALGUMAS CRATERAS DA LUA
 
Horários em Tempo Legal do Distrito Federal ( TDF )
 
As imersões ocorrem no dia 20 de fevereiro e as emersões no dia 21 de fevereiro.
 
IMERSÃO
CRATERA
EMERSÃO
CRATERA
22:48
Grimaldi
01:06
Grimaldi
22:49
Aristarchus
01:07
Billy
22:54
Kepler
01:07
Tycho
22:56
Billy
01:09
Campanus
23:00
Pytheas
01:19
Kepler
23:02
Copernicus
01:22
Aristarchus
23:03
Timocharis
01:27
Copernicus
23:05
Plato
01:30
Pytheas
23:11
Campanus
01:36
Timocharis
23:14
Aristoteles
01:42
Dionysius
23:15
Eudoxus
01:42
Manilius
23:16
Manilius
01:44
Plato
23:20
Menelaus
01:46
Menelaus
23:24
Dionysius
01:47
Goclenius
23:24
Plinius
01:49
Plinius
23:27
Tycho
01:51
Eudoxus
23:34
Proclus
01:52
Aristoteles
23:38
Taruntius
01:53
Langrenus
23:42
Goclenius
01:55
Taruntius
23:48
Langrenus
01:59
Proclus
 
 
OUTRAS INFORMAÇÕES TÉCNICAS SOBRE O ECLIPSE
 

Série: O eclipse total da Lua de 21 de fevereiro de 2008 é a repetição, após um período de Saros, do eclipse total ocorrido em 09 de fevereiro de 1990. Ambos fazem parte da Série de Saros de Eclipses Lunares nº 133, que se desenvolve em torno do nodo descendente da órbita lunar e que teve início com o eclipse penumbral parcial ocorrido em 13 de maio de 1557 e que se encerrará com o eclipse penumbral parcial de 29 de junho de 2819. A série em questão terá, portanto, a duração de 1.262 anos. O presente eclipse é o 26º da série composta por 71 eclipses ( 16 penumbrais, 34 parciais e 21 totais ).

Ponto Sub-lunar: No instante do meio do eclipse a Lua estará muito próxima do zênite dos observadores situados na Guina Francesa.

 
 
TABELA 4 - COORDENADAS E GRANDEZAS GEOMÉTRICAS NO MEIO DO ECLIPSE
 
1
Ascensão Reta do centro da sombra
10h 15m 30.04s
2
Declinação do centro da sombra
+10° 48' 31.27"
3
Ascensão Reta do centro da Lua
10h 14m 48.44s
4
Declinação do centro da Lua
+10° 28' 7.56"
5
Diâmetro aparente da Lua
31.14'
6
Paralaxe equatorial da Lua
0° 57' 8.44"
7
Paralaxe equatorial do Sol
8.89"
8
Diâmetro aparente da sombra
1º 23.38'
9
Diâmetro aparente da penumbra
2º 28.08'
 
 
TABELA 5 - OS PRÓXIMOS ECLIPSES DA LUA
 
DATA *
TIPO
VISIBILIDADE NO BRASIL
01
2008.AGO.16
Parcial
Somente as fases finais serão visíveis no Brasil.
02
2009.FEV.09
Penumbral
Invisível no Brasil.
03
2009.JUL.07
Penumbral
Invisível no Brasil.
04
2009.AGO.05
Penumbral
Observável em todo o território brasileiro.
05
2009.DEZ.31
Parcial
Invisível no Brasil.
06
2010.JUN.26
Parcial
Invisível no Brasil.
07
2010.DEZ.21
Total
As fases finais serão invisíveis no Brasil.
08
2011.JUN.15
Total
Somente as fases finais serão visíveis no Brasil.
09
2011.DEZ.10
Total
Invisível no Brasil.
10
2012.JUN.04
Parcial
Invisível no Brasil.

* As datas referem-se ao instante do meio do eclipse em tempo legal do fuso -3h ( Tempo Legal do Distrito Federal - TDF ).

 

 
 
URANOMETRIA NOVA - Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera e
da Escola Municipal de Astrofísica de São Paulo,
no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e E. M. de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella

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