Histórias
da Astronomia
Produção: Irineu G. Varella & Priscila D.C.F. de Oliveira
Nº 003 - 01 de Dezembro de 2003

 
ASTRONOMIA E OS ÍNDIOS DESÂNA
Priscila Di Cianni Ferraz de Oliveira *
 

A Astronomia é uma das ciências mais antigas e, desde os seus primórdios, a humanidade buscou no céu, ciclos que pudessem regular as suas atividades ligadas à sobrevivência. Nenhuma cultura dispensou os "avisos" do céu, procurando preparar-se para o tempo de trabalhar a terra, semear, colher, pescar, caçar, coletar etc..

Quando estudamos a história da Astronomia o fazemos, quase sempre, através do legado de povos como os egípcios, mesopotâmicos e gregos, que acabaram por nos deixar a ciência propriamente dita. No entanto, outros povos, como os índios brasileiros, também possuem sua Astronomia, com as suas constelações que, como era de se esperar, nada têm em comum com as constelações imaginadas por aqueles povos.

Em 1987 foi publicado na revista Ciência Hoje (SBPC), um artigo da antropóloga Berta G. Ribeiro e do índio desâna Tolamãn Kenhíri que ilustra como os desâna regulam, pelas constelações, os seus ciclos de plantio, coleta de insetos, pesca, etc. Os arranjos das estrelas, por eles construídos, representam animais típicos da região do alto rio Negro, local onde vivem.

O ano inicia-se em meados de outubro quando surge no horizonte leste, pouco antes do nascer do Sol, a constelação Iluminação da Jararaca ( anã siñoliru, na língua desâna ), identificada com o nosso Cruzeiro do Sul, que anuncia a chegada de fortes chuvas. Com o passar das semanas, outras estrelas vão surgindo, completando o corpo da jararaca e indicando o que os desânas devem fazer para a sua subsistência. Em novembro, também pouco antes do nascer do Sol, surgem, no horizonte sudeste, as estrelas Alfa e Beta da constelação do Centauro que, para os desâna, representam os Ovos da Jararaca ( Añá diubá puiró ): é a época da coleta dos cogumelos. E, quase no final de dezembro, aparece a cauda do Escorpião que constitui o Rabo Redondo da Jararaca ( Añá poleró beró ), anunciando a época da pesca.

Intimamente ligadas, estrelas-coleta/pesca/cultivo, demonstram, sem sombra de dúvida, a importância da observação do céu para todos os povos primitivos. Se hoje nós, povos com tecnologia, não percebemos a importância do céu sobre as nossas vidas é por que grupos específicos de pessoas, no caso, os astrônomos, preocupam-se em regular e acompanhar os ciclos celestes adequando o calendário, a nossa escala de tempo, etc e nem mais paramos para pensar o quanto esses ciclos afetam as nossas atividades econômicas.

Os ciclos da agricultura, pesca, etc, são regulados, em sua essência, pelo movimento do nosso planeta ao redor do Sol. É esse movimento que produz, entre outras coisas, a sucessão das estações do ano e a conseqüente variação na quantidade de radiação solar recebida em uma dada região da Terra. As alterações nos aspectos do céu que observamos ao longo do ano, refletem as mudanças de posição da Terra na sua órbita ao redor do Sol e servem de indicadores práticos para as atividades de sobrevivência de muitas culturas. A constelação do Escorpião, por exemplo, é típica das noites de inverno no hemisfério sul da Terra; a de Órion, por outro lado, é melhor observada nas primeiras horas da noite durante o verão, e assim por diante.

Abaixo segue uma relação das constelações dos desânas, identificadas pelo astrônomo Marcomede Rangel Nunes do Observatório Nacional, com as constelações reconhecidas pela União Astronômica Internacional. Os indicadores e as atividades a elas relacionadas encontram-se na última coluna.

 
CONSTELAÇÃO
( NOME EM DESÂNA )

SIGNIFICADO

IDENTIFICAÇÃO
ATIVIDADE
Añá siñoliru
Iluminação da Jararaca
Cruzeiro do Sul
Fortes chuvas.
Añá dihpuro
Cabeça da jararaca
 
Limpeza do solo.
Añá dëhpë puiró
Corpo da jararaca
 
Derrubada das árvores.
Añá diubá puiró
Ovos de jararaca
Estrelas Alfa e Beta do Centauro
Coleta de cogumelos.
Añá poleró beró
Rabo redondo de jararaca
Cauda do Escorpião
Pesca: ocorre a primeira piracema do aracu.
Pamo ngoá dëhka
Fêmur de tatu
 
Chuvas.
Pamo
Tatu
 
Segunda piracema do aracu.
Ñahsin kamë
Camarão
 
Terceira piracema do aracu; coleta de maniuaras1, saúvas e formigas da noite.
Yé disiká poaló
Barba do queixo da onça

Pedaço da Ursa Maior (?)

Fim do ciclo das pira-cemas e da safra de umari 2
Yé dëhpë puiró
Corpo da onça
 
Caça às rãs
Yé poleró beró
Rabo redondo da onça
 
Fim da caça às rãs e da coleta de formigas; coleta de cupins.
 
1 Maniuaras: um tipo de formiga
2 Umari: fruta típica da região.
 

REFERÊNCIA

RIBEIRO, Berta G.; KENHÍRI, Tolamãn. CHUVAS E CONSTELAÇÕES. In: Ciência Hoje, v.6, n.36, p.26-35, out.1987

 

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Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera
e da Escola Municipal de Astrofísica
de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

* Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella
Ultima revisão: 18 de Julho de 2009

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