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| da Astronomia | ||||||||||
Nº 026 |
30
de Junho de 2008 |
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TUNGUSKA
1908 - 100 anos de mistérios |
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Priscila
Di Cianni Ferraz de Oliveira * |
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Na
manhã da terça-feira, dia 30 de junho de 1908, às
07h 17min na região da taiga siberiana próxima ao rio
Tunguska, um objeto vindo do espaço explodiu quando estava a
6.000 m de altitude, produzindo uma onda de choque que devastou 2.000
km2 de floresta. Felizmente essa era, e ainda é, uma
região inóspita e, portanto, não houve, no momento
do impacto, vítimas fatais. Se o que aconteceu em Tunguska, ocorresse
em uma região densamente povoada, teria sido uma catástrofe
de proporções gigantescas. |
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Fig.1
- Mapa da região onde ocorreu o fenômeno. |
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Em
2 de julho de 1908, o jornal de Irkutsk publicou o relato de duas testemunhas: “...Um camponês disse ter avistado um corpo de brilho intenso com uma luz branco-azulada...o objeto tinha a forma de um cilindro. O céu estava praticamente sem nuvens, exceto na direção do nascente, onde o objeto foi observado, lá havia uma pequena nuvem escura. Estava quente e seco quando o corpo brilhante se aproximou do chão dando a impressão de estar pulverizando o lugar. Houve um estrondo, não como um trovão, mas como o som de uma avalanche de pedras ou como um tiroteio. Todos os edifícios tremeram e ao mesmo tempo uma labareda surgiu através da nuvem. Todos os habitantes da aldeia correram em pânico para a rua. Uma senhora idosa começou a chorar e todo o mundo pensou que o fim do mundo estava se aproximando.” |
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S. B. Semedec, uma testemunha da vila de Vanavara, que fica a cerca de 60 km ao sul do local da explosão relatou o que se segue: “ Eu estava sentado na varanda da estação de troca de Vandecara na hora do café da manhã, quando de repente, no norte o céu foi separado em dois. Na parte acima da floresta o céu inteiro pareceu ter sido coberto de fogo. Nesse momento eu senti um grande calor, como se a minha camisa estivesse pegando fogo. Eu quis retirar a minha camisa e jogá-la longe, mas naquele momento, houve um estrondo, um ruído poderoso vindo do céu. Eu fui jogado na terra por aproximadamente 7 m e por um momento perdi a consciência. O estrondo foi seguido pelo ruído de pedras caindo. A terra tremeu e eu protegi a minha cabeça, pois tive medo que as pedras pudessem cair em mim.” |
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As
conseqüências do impacto puderam ser sentidas a grandes distâncias.
Vibrações sísmicas foram registradas por instrumentos
posicionados a mais de 1.000 km de distância, uma coluna de fogo
foi vista a centenas de quilômetros do local. Após a explosão,
uma coloração incomum foi percebida no céu durante
o nascer e o ocaso do Sol em vários países no oeste da
Europa, na Escandinávia e na Rússia. O clímax foi
no dia 30 de junho mas permaneceu por semanas, embora enfraquecendo
lentamente, até sumir. |
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Uma
coluna de poeira ergueu-se entre 40 e 70 km de altitude causando um
fenômeno conhecido como brilho-noturno. Esse fenômeno é
causado pela reflexão da luz solar nas partículas de poeira
em suspensão na atmosfera. O brilho-noturno no leste da Sibéria
e no meio da Ásia era suficiente para se ler um jornal. Distúrbios
no campo magnético da Terra foram relatados a 900 km do epicentro
pelo Observatório Irkutsk. Essas tempestades magnéticas
são equivalentes àquelas produzidas por testes nucleares
efetuados na atmosfera. O momento político que a Rússia
vivia foi um dos fatores que fez com que se demorasse a montar uma expedição
científica em busca de respostas para o que havia acontecido.
Somente em 1927 o cientista Leonid Kulik do Instituto Meteorológico
Russo, chefiou uma expedição para estudar o fenômeno. |
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Os
relatos dos xamãs das tribos nômades da região contavam
das árvores queimadas e caídas. O xamã chefe do
povo da região, os Evenks, havia virtualmente selado a região
proclamando-a “encantada”. O povo Evenk estava atemorizado
acreditando que os deuses haviam se enfurecido e destruído a
região. Kulik esperava encontrar uma cratera meteorítica
e, até mesmo, fragmentos do meteorito. Vencida a resistência
das tribos ele e sua equipe finalmente penetraram na região.
Tiveram que abrir caminho por cerca de 100 km de taiga, cruzar rios
e pântanos. O pior, entretanto, foram os enxames de mosquitos.
Kulik não conseguiu encontrar vestígios do meteorito e
nem a cratera que teria sido produzida pelo impacto. |
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Outras
expedições seguiram buscando uma explicação
para o evento. Quando Fred Whipple apresentou o seu modelo de estrutura
cometária – a bola de gelo sujo – alguns cientistas
acreditaram ter encontrado a explicação. Um fragmento
do gelo de um cometa havia se precipitado para a atmosfera terrestre,
sendo totalmente destruído na entrada. Essa seria a razão
de não encontrarmos fragmentos. |
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O
astrônomo eslovaco Lubor Kresak sugeriu que poderia ser um fragmento
do cometa Encke que é o responsável pela chuva de meteoros
Beta Taurídeos, uma vez que o evento coincidiu com um pico dessa
chuva. Em
1983, o astrônomo Z. Sekanina publicou um artigo criticando a
hipótese cometária. Ele argumentou que um corpo composto
de material cometário, viajando através da atmosfera em
uma trajetória tão baixa seria desintegrado rapidamente
mas, o bólido avistado em Tunguska, permaneceu intacto na baixa
atmosfera por um bom tempo. Sekanina argumentou que um objeto denso,
rochoso, provavelmente de origem asteroidal era mais provável. |
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Em
1993, os pesquisadores Chris Chyba, Paul Thomas e Kevin Zahnle estudando
a explosão da Sibéria, concluíram que foi um tipo
de meteoróide rochoso (aerólito) que explodiu na atmosfera.
Essa conclusão foi reforçada quando pesquisadores russos
encontraram fragmentos finos de partículas rochosas entranhadas
nas árvores da região da colisão, combinando com
a composição química dos aerólitos. Essa
hipótese ganhou força em 2001, quando Farinella, Foschini
et al., publicaram um estudo que sugere que o objeto em questão
veio da direção do cinturão dos asteróides. |
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Os
primeiros cálculos estimaram que o asteróide original
deveria ter de 50m a 60m de diâmetro. Estudos recentes feitos
pelo pesquisador de meteoritos Christopher Chyba, avaliou que a explosão
pode ter sido causada por um aerólito com cerca de 30m de diâmetro,
viajando com velocidade em torno de 15 km/s. A energia liberada na explosão
foi calculada em torno de 4,8 x 1015 joules. Isso é
equivalente a 500 mil toneladas de TNT ou 60 bombas iguais à
bomba atômica que foi lançada em Hiroshima. |
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Em
1999, Giuseppe Longo, físico da Universidade de Bolonha, Itália,
encontrou e estudou o Lago Cheko localizado a 8 km na direção
noroeste do epicentro da destruição. Não havia
registro da existência desse lago até o evento, embora,
esta região não fosse mapeada em detalhes. A
equipe do Prof. Longo, em um primeiro momento, não pensava que
o lago pudesse ter origem em uma cratera de impacto. Pesquisas com sonar,
no entanto, mostraram que o fundo do lago é em forma de cone,
diferente de outras formações geológicas da região,
sugerindo formação por impacto meteorítico. |
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Outros
estudiosos discordam. O cientista especialista em meio-ambiente, Gareth
Collins, do Imperial College de Londres, alega que se não houver
evidências de temperatura e pressão alta no local onde
teria caído o cometa, não pode haver cratera de impacto.
"Para abrir um buraco do tamanho do Lago Cheko, o asteróide
teria que ser muito pequeno e viajar com velocidade muito baixa". |
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A
equipe de Bolonha pretende regressar à Tunguska ainda em 2008
para completar os estudos. Até que novos resultados sejam publicados,
o evento em Tunguska permanecerá sendo um mistério fascinante. |
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